PAPELÃO RECICLADO É USADO PARA FABRICAR MÓVEIS E BRINQUEDOS

Foto: Moacyr Galvão

19/05/2017

Um banquinho feito de papelão reciclado pode suportar até 200 quilos. Esse é apenas um exemplo da resistência e versatilidade desse material que vem ganhando espaço, com novos usos e aplicações, inclusive na decoração de ambientes. Foi justamente para aproveitar essas características e outro diferencial de peso - a sustentabilidade - que a Cartone Design começou, em 2011, a fabricar diversos itens de papelão reciclado. Para saber mais sobre as características e vantagens da utilização desse material na indústria moveleira, o Cempre Informa Mais conversou com Bruno Pellegatti, sócio-fundador e diretor-geral da empresa:

Quando e como foi criada a Cartone Design?

Em 2011, desenvolvemos os primeiros protótipos de móveis em papelão, mas o embrião foi quando começamos a criar produtos para animais feitos de papelão como casinhas e arranhadores para gatos. Já trabalhávamos com essa matéria-prima há mais de dez anos e conhecíamos bem sua resistência e versatilidade. Conversando com minha esposa, resolvemos pensar em opções para aumentar nosso portfólio e percebemos a existência de uma demanda para móveis, principalmente no mercado de eventos. Fizemos, então, os primeiros protótipos, alguns eram bem rústicos, mas a partir deles pensamos em soluções para maximizar a força estrutural do papelão e, ao mesmo tempo, refinar o design.

Em nossos desenvolvimentos, nos guiamos pela funcionalidade e pela otimização do uso da matéria-prima. O princípio sempre foi usar o mínimo de material possível com o mínimo de desperdício.

Que tipos de móveis a Cartone fabrica?

Temos mais de 30 produtos em linha: banquinhos, cadeiras, bancos de praça, mesas, nichos, cubos, estantes, cabides, lixeiras... É um portfólio bem variado, composto tanto por opções de brinquedos, móveis e acessórios para pessoas físicas como por itens voltados para eventos.

Quem são seus consumidores?

Antes da crise, 95% da produção ia para empresas - produtoras de eventos e agências de promoção de publicidade - e fazíamos poucas vendas diretas. Com a recessão, tivemos que readequar o foco operacional para não ficarmos tão dependentes da comercialização corporativa porque realmente houve uma queda acentuada. Começamos, então, a repensar o varejo, criamos uma loja virtual para ter um canal direto e lançamos os brinquedos de papelão, para os quais notamos que existia uma demanda considerável. Havia opções similares no mercado, mas por preços que não achamos justos. Como somos fabricantes, tínhamos uma boa vantagem estratégica para entrar nesse nicho. Hoje em dia, logicamente há flutuações de mês a mês, mas de 5%, a participação do varejo passou a cerca de 30%. Felizmente, nosso reposicionamento foi rápido. Se ficássemos esperando os grandes pedidos do atacado, teríamos enfrentado sérias dificuldades.

Quais as vantagens dos móveis de papelão?

A principal vantagem é ser barato. Há também a questão da praticidade, de ser desmontável, ter baixo custo de armazenamento, ser 100% biodegradável e, no nosso caso, feito com material reciclado... A percepção das vantagens depende do tipo de comprador. Para o cliente corporativo, além do baixo custo, há a possibilidade de personalização e o valor agregado da sustentabilidade. Todos os nossos móveis são produzidos com papelão reciclado. Para o cliente pessoa física, que vai usar o móvel em sua casa, tem ainda a atratividade do inusitado. É algo diferente, quando se recebe alguém sempre causa surpresa, e pesam também os aspectos do baixo custo e a possibilidade de montar e desmontar, alterando a decoração como e quando quiser. Se cansar, você desmonta, põe atrás da porta e pronto.

Móvel de papelão é um nicho hoje no Brasil?

No momento, somos os únicos fabricantes no país a usar papelão reciclado. A maioria das outras empresas compra e revende, nós fabricamos. Oferecemos, portanto, uma série de vantagens, tanto no aspecto de personalização como na agilidade do atendimento. O mercado corporativo já é um segmento bem maduro, principalmente para eventos, por conta do baixo custo, da facilidade e rapidez para montar e desmontar e da possibilidade de inserção de marcas e mensagens. Além disso, para algumas empresas, o fato de ser sustentável agrega também um benefício importante.

De onde vem o material?

Nós compramos as chapas de papelão reciclado prontas, nas medidas que atendem nossas necessidades, e fabricamos nossos produtos. O papelão é proveniente de diversas fontes como cooperativas, catadores e sobras da própria indústria.

Depois de muita busca, encontramos um fornecedor que tem uma matéria-prima que nada deve à fibra virgem. Conseguimos manter a resistência estrutural e a qualidade dos móveis, diminuindo os custos, e utilizamos um material que é ainda mais sustentável do que o papelão virgem.

Qual é a redução em termos de custo?

Há uma economia de 10% a 15%, com a mesma resistência estrutural e durabilidade. Ou seja, é mais barato e com menor impacto ambiental, pois não envolve a extração de madeira mesmo que de reflorestamento.

Qual é a percepção do consumidor em relação à sustentabilidade dos seus produtos?

De modo geral, a percepção é que não adianta ser sustentável se for caro ou se a qualidade for inferior a produtos similares. O consumidor busca preço, praticidade e qualidade. Se conseguirmos aliar a sustentabilidade a essas características é mais um diferencial que vai influenciar a compra. 

Qual é a capacidade produtiva da Cartone?

Com a nossa estrutura atual, algo em torno de 30 toneladas/mês. Em 2016, usamos, em média, metade dessa capacidade. No final do ano, tivemos um aumento significativo dos pedidos e estamos vendo uma luz no fim do túnel em relação à crise.

Quais foram as maiores dificuldades e acertos do seu negócio?

A primeira dificuldade foi vencer a noção errada de que papelão é de graça. As pessoas compram uma TV que vem numa caixa de papelão e acham que a caixa não tem custo, mas esse custo foi diluído no preço da TV. A ideia de que papelão é vulgar ou extremamente barato é um preconceito contra o qual lutamos no dia a dia e que está em total desacordo com a realidade: o papelão é uma matéria-prima nobre, feita de fibra de celulose, 100% reciclável e 100% biodegradável.

O nosso principal acerto foi ter essa visão de que não basta ser sustentável, tem que ser barato e de qualidade. Não quisemos nos posicionar no mercado de luxo. Nosso objetivo - que tem sido atingido! - é oferecer produtos resistentes, versáteis e sustentáveis com preço competitivo.


TERRA, ÁGUA E ENERGIA: A TRÍADE PARA A SUSTENTABILIDADE

Mauricio Lopes, Monica Porto, Edson Watanabe e Elibio Rech: água, energia e 
produção agrícola em harmonia - Foto: Divulgação ABC

19/05/2017

Os desafios que se impõem ao maior produtor de grãos do mundo, o Brasil, no caminho para desenvolvimento econômico e social sustentável foi o mote da sessão científica da Reunião Magna da ABC, da tarde de terça-feira, 9 de maio. No encontro, o presidente da Embrapa, Mauricio Lopes, a secretária adjunta da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, Monica Porto, e o diretor Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Edson Watanabe, falaram sobre a necessidade de se harmonizar o gerenciamento dos recursos hídricos, a produção agrícola e a geração de energia limpa, visando ao sustento da economia e ao bem-estar da população. O Acadêmico e engenheiro agrônomo Elibio Rech Filho coordenou a sessão.

Para os especialistas que compuseram a mesa de debates, os investimentos contínuos em ciência e tecnologia, em uma perspectiva de desenvolvimento econômico-social sustentável, têm garantido os avanços do país em áreas como a agropecuária e a geração de energia. Sob o ponto de vista da agricultura, o presidente da Embrapa, Mauricio Lopes, ressaltou a trajetória de sucesso do Brasil na área de produção alimentar dos últimos 40 anos. "Não foi fácil nos tornarmos um modelo de agricultura para o mundo. Somos o maior cinturão agrícola em região tropical, tendo que, para isso, ter aprendido a dominar ambientes difíceis, um solo pobre, lixiviado e rico em manganês e alumínio", disse Mauricio Lopes, lembrando que até os anos 70 o país não tinha adquirido expertise para lidar com tamanha diversidade.

"A agricultura era concentrada na faixa litorânea e não passávamos de um país agroexportador de café e açúcar. Conseguirmos avançar por meio de um modelo de agricultura pautado em ciência e tecnologia. Um trabalho que a Embrapa realizou, por meio da parceria com centros de pesquisa, e da criação de um sistema integrado de lavoura e floresta", afirmou.

Segundo dados da Embrapa, em 38 anos o Brasil saiu da marca de produtividade de 1,4 toneladas por hectares, para 4,5 toneladas. "A ciência teve um papel decisivo nessa evolução, que gerou impactos no preço da cesta básica e no mercado global, visto que somos provedores de alimentos para cerca de 1 bilhão de pessoas", disse Lopes, ressaltando em seguida: 

"Podemos perder o grande bonde da história se não forem realizados investimentos contínuos em ciência e tecnologia. É preciso que seja gerado conhecimento e inovação para que o país se mantenha como líder da produção agrícola nos trópicos", alertou o presidente da Embrapa. Veja a apresentação de Maurício Lopes 

"Precisamos aprender com a crise hídrica de 2014 e 2105"

Sobre história, Monica Porto disse que o país tem muito a aprender, principalmente no quesito gerenciamento eficiente dos recursos hídricos. Referindo-se a um passado bastante recente e presente na memória dos brasileiros, a crise hídrica de 2014 e 2015, a secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo e professora titular Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) contou que acompanhou de perto os níveis do Cantareira, o maior dos sistemas administrados pela Sabesp (Companhia de Águas e Esgotos de São Paulo), destinado a captação e tratamento de água para a Grande São Paulo. 

Segundo ela, embora o Brasil tenha sido pioneiro na gestão do uso dos recursos hídricos, com a publicação do Código de Águas em 1934, até hoje o país não enfrentou o desafio de pensar o gerenciamento do uso da água de forma integrada. Isto é, considerando tanto a produção de energia e quanto a de alimentos. "Ao se falar em segurança hídrica, pensa-se em reuso da água e dessalinização. Alternativas com um potencial enorme para minimizar uma crise hídrica de um lado, mas capazes de pressionar ainda mais o consumo de água. O mesmo acontece quando se fala em biocombustíveis. Melhoro a matriz energética, mas pressiono a matriz da água. É preciso que se olhe para essas inter-relações que acontecem com o uso da água", ressaltou Monica.

Para a secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, a seca de 2014 e 2015 trouxe uma série de lições. Uma delas, a urgência de se reduzir o risco de desabastecimento às populações. "É preciso mudar a forma de gerir a água nas cidades. Temos que colocar na prática a noção de uso múltiplo da água. Pela complexidade do tema, temos dificuldades em esclarecer os múltiplos uso dos recursos hídricos a fim de se manter as seguranças alimentar, hídrica e energética", afirmou.

De acordo com a professora da USP, para não se repetir os erros de um passado recente a saída é a articulação plena entre inovação, financiamento e governança."É preciso repensar esse sistema de gestão da água para não passarmos novamente pela mesma situação de crise hídrica que vivemos. Existe uma necessidade urgente de se desenvolver conceitos de gestão de risco, prevenção e preparação. É preciso que se pense em investimentos em desenvolvimento tecnológico, mas também institucional, por meio da melhoria de alternativas ao sistema econômico, por exemplo. Seja por meio do uso de financiamentos, indenizações a agricultores ou seguros que protejam determinados setores num momento em que tenho que privilegiar um uso da água ao outro", sugeriu Monica.

A especialista referiu-se, especialmente, à agricultura irrigada, que consome 75% da água disponibilizada, visto que seu sistema não prevê um reaproveitamento. Enquanto isso, a indústria consume só 6%. "Na crise de 2014 e 2015, houve um impacto significante no abastecimento do cinturão agrícola de São Paulo. Se parássemos a irrigação, comprometeríamos também o abastecimento de toda a Região Metropolitana de São Paulo. Ao mesmo tempo, os reservatórios do Paraíba do Sul foram pressionados pela necessidade de demanda de energia elétrica, o que colocou o Rio de Janeiro e uma situação de risco de desabastecimento. Por tudo isso, é preciso repensar esse sistema de gestão de água", enfatizou ela. Confira a apresentação de Monica Porto

Energia, um desafio do presente

Para o diretor da Coppe, Edson Watanabe, o caminho para a mudança passa por renovação na maneira dos homens pensarem o consumo dos recursos naturais na Terra. "Hoje, o que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) faz no Brasil é adequar a oferta de energia à demanda de nós, brasileiros. Seja ligando ou desligando as termelétricas, por exemplo. Precisamos ter a consciência de que o comportamento humano também impacta no meio ambiente. Gastar menos energia é uma mudança de cultura", disse ele. 

Em sua fala, o engenheiro lembrou que o futuro, que se anuncia, segundo ele, aponta para uma nova lógica de consumo e produção de energia, onde o consumidor também será produtor. Para o Watanabe, essa nova relação vai exigir de todos nós um controle maior do uso da energia. "Com as Smart Grids, cidades inteligentes, o consumidor vai produzir, além de consumir. Mas ele deverá ter um controle maior da sua demanda, não poderá ligar o ar-condicionado quando quiser ou usar o chuveiro elétrico e o ferro de passar ao mesmo tempo. Isto porque não haverá um ONS para prover mais energia a ele", explicou.

O aumento no uso de energias renováveis também impõe o mesmo desafio: o de se aprender a racionalizar o consumo. Watanabe ressaltou que quando toda a energia elétrica consumida for produzida por meio de fontes como o sol, o vento ou a força das ondas, será preciso criar um sistema de armazenamento capaz de garantir a oferta de eletricidade à toda a população. "Precisamos aprender a armazenar energia de forma barata, quando falamos de formas intermitentes, como as energias renováveis. Baterias, ar comprimido, armazenamento por meio de hidrogênio, via eletrólise, essas são algumas alternativas que já vem sendo testadas" listou ele, que fez à plateia um instigante desafio de reflexão:

"Quanto precisamos de energia elétrica hoje? O Brasil tem uma capacidade instalada de 152 GW (gigawatts). A cada 10 anos, temos que dobrar essa capacidade. Como acompanharemos esse crescimento?", questionou o especialista. Acesse aqui a apresentação de Edson Watanabe

Aline Salgado (Assessoria de Comunicação da Academia Brasileira de Ciências (ABC) 
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia 
asalgado@abc.org.br 
Telefone:  ( 21) 3907-8129

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)

VIEIRA DE MELLO LEMBRADO EM MENSAGEM SOBRE FERIADO NACIONAL EM TIMOR-LESTE

Sérgio Vieira de Mello. Foto: ONU/Evan Schneider (arquivo)

19/05/2017

Chefe de gabinete do secretário-geral da ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, destacou papel do brasileiro, morto no Iraque em 2003, como vital para a construção da nação 15 anos atrás; Timor-Leste festeja 15 anos da restauração da independência neste sábado, 20 de maio.

Monica Grayley, da ONU News em Nova Iorque.

A contribuição do ex-funcionário das Nações Unidas, o brasileiro Sergio Vieira de Mello, foi lembrada durante uma mensagem de rádio do secretário-geral aos timorenses sobre o feriado nacional deste 20 de maio.

A mensagem, entregue pela chefe de gabinete de António Guterres, lembra  o papel do brasileiro na restauração da independência do Timor-Leste em 2002.

Comunidade internacional

A embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti está em Díli para representar o secretário-geral na cerimônia. Antes de viajar ao Timor, ela gravou o texto nos estúdios da ONU News em Português.

"Desejo lembrar, por fim, o papel de meu concidadão, Sergio Vieira de Mello, cujo empenho e ação muito contrubuiram para a construção de Timor-Leste e para a sua integração plena à comunidade internacional. Votos de felicidades, êxito e continuação de um bom trabalho a todos os timorenses."

A chefe de gabinete do secretário-geral da ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, também destacou o papel histórico que António Guterres desempenhou para que o Timor saísse do domínio indonésio e tivesse sua independência restaurada.

Naquela época, Guterres era primeiro-ministro de Portugal.

"É hoje, com imenso prazer e orgulho, que as Nações Unidas olham para Timor-Leste e para as conquistas do povo timorense.

O Secretário-Geral, António Guterres, sente-se muito próximo de Timor-Leste e gostaria de ter podido aqui estar. Enquanto o primeiro-ministro de Portugal teve papel decisivo no desenrolar dos acontecimentos que levaram à restauração da independência. E foi como muita alegria que viu o Timor, em 2002, voltar à vida independente e ao convívio das Nações."

Na cerimônia da comemoração dos 15 anos de restauração da independência, o Timor-Leste também dará posse ao novo presidente do país, Francisco Guterres Lú-Olo.

UGANDA: MAIS DE 900 MIL SUL-SUDANESES PRECISAM DE ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA

Foto: Fabio Basone

19/05/2017

Milhares de refugiados sul-sudaneses chegam ao país toda semana; a falta de água própria para consumo é um dos problemas mais graves

Uganda

 “Eles simplesmente te matam, independentemente de você ser homem, mulher ou criança. Perdi todos os meus irmãos e parentes. A vida aqui é muito difícil. Sem um homem, ninguém te ajuda”. Maria* é uma entre os milhares de refugiados que fugiram para Uganda desde julho de 2016 após a retomada da violência no Sudão do Sul. Mais de 630 mil refugiados chegaram, deste então, a Uganda, e milhares continuam chegando toda semana, levando o número total de refugiados e solicitantes de asilo sul-sudaneses a mais de 900 mil. Hoje, Uganda abriga mais refugiados que qualquer outro país da África. O país aceitou mais pessoas que toda a Europa em 2016.

Ao mesmo tempo em que muitas pessoas que chegam aqui estão em um estado relativamente bom de saúde, muitos têm histórias de violência extrema vividas em seu local de origem ou ao longo de sua jornada. O aumento no influxo de refugiados levou as políticas progressivas de refúgio de Uganda ao limite, sobrecarregando as condições de recepção e a capacidade do governo de responder.

“Apesar da mobilização em larga escala por parte de agentes humanitários, a resposta à emergência ainda está longe do ideal, e muitas pessoas não têm quantidades suficientes de água, alimento e abrigo”, diz Jean-Luc Anglade, coordenador-geral de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Uganda. Muitos refugiados recém-chegados são forçados a dormir embaixo de árvores; os atrasos na distribuição de alimentos e a falta de água potável fizeram alguns refugiados retornarem para o Sudão do Sul. Além disso, apesar de 85% dos recém-chegados serem mulheres e crianças e apesar dos relatos correntes de violência sexual no Sudão do Sul, há pouquíssimas organizações respondendo às necessidades específicas de proteção dessas pessoas. “Enquanto o fluxo de refugiados não mostra nenhum sinal de redução, um esforço contínuo e a longo prazo será necessário para oferecer assistência a essas pessoas nos próximos meses – se não nos próximos anos”, diz Anglade.

Além de suas operações no Sudão do Sul, MSF está respondendo à crise humanitária em Uganda desde julho de 2016, com atividades médicas e de água e saneamento. MSF, atualmente, está trabalhando em quatro assentamentos de refugiados no noroeste do país - em Bidi Bidi, Imbecpi, Palorinya e Rhino – oferecendo cuidados médicos ambulatórias e de internação, cuidados maternos, suporte nutricional, supervisão de saúde comunitária e atividades de água e saneamento. MSF também respondeu a um influxo que chegou a Lamwo, na fronteira com o Sudão do Sul, após ataque em Pajok, Equatória Oriental, mas transferiu suas atividades para outras organizações.  

O acesso a água é um dos maiores desafios nos assentamentos de refugiados, e MSF vem incrementando suas operações de distribuição de água. Em Palorinya, MSF trata uma média de 2 milhões de litros por dia do Rio Nilo, e com isso oferece apoio a mais de 100 mil pessoas. Somente em abril, MSF distribuiu a impressionante quantidade de 51.519.000 litros de água própria para consumo em Palorinya.

“Há uma série interminável de desafios”, diz Casey O’Connor, coordenador de projeto de MSF em Palorinya. “Podemos tratar milhões de litros de água por dia, mas tudo precisa ser transportado e distribuído em assentamentos de refugiados que chegam a ter até 250 quilômetros quadrados de área. Depois das chuvas pesadas, muitas estradas se tornaram intransitáveis. Isso deixa dezenas de milhares de pessoas sem água durante dias, e na estação chuvosa, se as pessoas não conseguirem água limpa, elas vão recorrer à água suja, parada e contaminada. Isso pode mudar radicalmente o estado de saúde da população – de um contexto relativamente saudável para um surto de alguma doença em questão de dias”.

Além de responder ao influxo de refugiados, MSF mantém programas regulares em Uganda, nos quais oferece serviços de saúde sexual e reprodutiva para adolescentes em Kasese; cuidados de HIV/Aids para as comunidades dos lados George e Edward; e serviços de carga viral no hospital regional de Arua.

*Nome alterado por questões de segurança

EXÉRCITO BRASILEIRO E MARINHA DO BRASIL COMEÇAM A EMBARCAR PARA O HAITI OS ÚLTIMOS CONTINGENTES

Foto: 11ª Bda Inf L / Agência Verde-oliva - EB

19/05/2017
       
Com Agência Verde-Oliva e Nomar

O 26º Contingente do Batalhão Brasileiro de Força de Paz (BRABAT 26), que será o último a atuar em solo haitiano, começou, no dia 16 de maio, a embarcar para a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH).

O primeiro escalão da tropa despediu-se do Brasil no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), com uma solenidade presidida pelo Comandante Militar do Sudeste, General de Exército João Camilo Pires de Campos, com a presença de autoridades civis e militares.



A maior parte dos integrantes do BRABAT 26 pertence à 12ª Brigada de Infantaria Leve (Aeromóvel), com sede em Caçapava (SP). Segundo a Organização das Nações Unidas, esse contingente encerrará as atividades militares do contingente brasileiro no país amigo, após mais de 13 anos de missão.

A Marinha do Brasil (MB) realizou, no dia 12 de maio, a Cerimônia de Ativação do 26° Contingente do Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais – Haiti.

Durante a solenidade, ocorrida no Pátio Brigada Real da Marinha, no Comando da Divisão Anfíbia, no Rio de Janeiro (RJ), os 175 militares selecionados para a missão fizeram a troca do gorro camuflado pelo gorro azul, símbolo dos mantenedores da paz das Organizações das Nações Unidas (ONU).

O evento foi presidido pelo Comandante da Força de Fuzileiros da Esquadra, Vice-Almirante, Fuzileiro Naval, Cesar Lopes Loureiro.

O primeiro grupo do contingente começou a embarcar em voos da Força Aérea Brasileira a partir do dia 16 de maio, quando iniciará o revezamento de tropas de fuzileiros navais.

Após 13 anos de serviços prestados à ONU, esta será a última missão dos fuzileiros na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (que será desativada pela ONU). Ao longo dos anos, a MB enviou para o país 6.135 militares.

MANAUS RECEBE EVENTO PREPARATÓRIO DO FÓRUM MUNDIAL DAS ÁGUAS

Foto:Diego Oliveira/Portal Amazônia

13/05/2017

O Fórum Mundial da Água acontece a cada quatro anos. A última edição aconteceu na Coreia do Sul

As soluções para  problemas hídricos são um dos principais temas do Fórum Mundial das Águas. O Amazonas sediou neste quarta-feira (10), um dos eventos preparatórios do encontro que acontece em março de 2018, em Brasília. Em Manaus, participaram do encontro profissionais da engenharia, agronomia, pesquisadores, cientistas, políticos e estudantes. 

O Fórum Mundial da Água acontece a cada quatro anos. A última edição ocorreu na Coreia do Sul. O principal objetivo do encontro é mostrar os impactos que a poluição faz com os recursos hidrográficos do planeta. "O Brasil participou desse debate e chamou a atenção para a prosperidade que temos, afinal possuímos a maior reserva hídrica do planeta, então a responsabilidade do país passa a ser bem maior. Queremos que as pessoas saibam que existem profissionais engajados em solucionar esses problemas", disse o presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), engenheiro civil José Tadeu da Silva.

A próxima edição do evento está marcada para ocorrer em 2018, em Brasília. A capital brasileira venceu a disputa com Copenhague (Dinamarca). "O Governo Brasileiro conseguiu trazer o Fórum para o país. Queremos dar enfoque para a Amazônia e dessa forma sensibilizar as autoridades brasileiras e mundiais sobre a importância de preserva essa riqueza. Entendo que esse evento pode trazer muitos benefícios para o Brasil, porque somos o país mais qualificado para trazer essa discussão ao mundo", afirmou Silva.

Em 2016, Brasília sediou a Conferência Internacional das Águas que foi promovida pelo Confea e pela Federação Brasileira de Engenharia. O evento contou com a participação de duas entidades mundiais, a União Pan-americana de Associações de Engenheiros e a  World Federation of Engineering Organisations (WFEO). Na opinião de Silva, essa conferência chamou a atenção das autoridades. "O Brasil mostrou ali potencial para sediar o Fórum Mundial, não só voltado para a água, mas na cadeia que implica a questão. De lá também saiu a ideia de fazer o evento preparatório no Amazonas", revelou.

 
Foto:Diego Oliveira/Portal Amazônia

Durante a Conferência Internacional das Águas, uma carta foi escrita em três línguas (português, espanhol e inglês), nela as autoridades colocaram várias questão que precisam ser abordadas em relação a água no mundo. Ele revelou que existem vários projetos sendo estudados no momento. “Teremos os maiores especialistas para palestrar no Fórum Mundial da Água, e também temos uma ótima quantidade de materiais que podem ser utilizados como projetos no futuro. Ainda não conseguimos colocar nada em prática, mas os pesquisadores estão trabalhando para editar tudo da melhor maneira possível. Precisamos nos preparar e planejar cada passo”, afirmou. 

Evento preparatório

Segundo o presidente da Crea-AM, engenheiro civil Cláudio Guenka, a importância de Manaus sediar o evento vai além das questões ambientais. "É importante não apenas para a cidade, mas para toda região Amazônica. Hoje iniciamos a conferência falando sobre os impactos das mudanças climáticas, então estamos alertando ao mundo que o Amazonas seja visto de uma maneira diferente. Queremos que as nossas águas sejam tratadas com as particularidades que nós temos aqui, então dessa maneira eu vejo que o Conselho Federal de Engenharia acertou em trazer o evento para a cidade. Espero que possamos apurar todos os saldos desse encontro, os positivos e negativos também", falou.

Foto:Diego Oliveira/Portal Amazônia

Para o engenheiro, a questão hídrica é muito importante na região Norte. Ele acredita que ainda é necessário trazer a tona questão como a qualidade da água, preservação de nascente e que o próprio amazônida possa trabalhar em harmonia com a natureza. “Temos que fazer uma reflexão sobre como todas as coisas estão interligadas, levar em consideração, por exemplo, a água enquanto recurso necessário para a sobrevivência de toda especie humana. São questão fortes, mas ao mesmo tempo necessárias”, disse Guenka.

Guenka acredita que o encontro mostra a coletividade das pessoas, não só para dividir recursos hídricos, mas para focar em ideias. “O Fórum tenta inserir nos participantes o espirito coletivo. O nosso objetivo é mostrar que apesar de haver água em abundância na Amazônia existem lugares que sofrem com a escassez da mesma. Por isso, o encontro torna-se primordial para a resolução desses problemas, pois, envolvemos os técnicos de engenharia e agronomia para pensar essa grande discussão, claro que não podemos tratar a água de maneira tão comercial, então a coletividade surge também como forma de ideias”, destacou o presidente da Crea-AM.

Ao ser questionado sobre os problemas de abastecimento de água em alguns pontos de Manaus, Guenka, afirmou que o desenho urbano da cidade é de conhecimento dos engenheiros. Ele também parabenizou o esforço que é feito para levar o abastecimento para os contribuintes. "Temos aqui a participação da concessionaria Amazonas Ambiental que entra nessa discussão para mostrar tudo o que está sendo feito para a população, e saber também de qual forma podem contribuir para o Fórum", destacou.

PRESIDENTE DO MÉXICO RESPONDE APELO AMBIENTAL DE DICAPRIO POR ESPÉCIE AMEAÇADA

Espécie rara está a beira da extinção no México (Foto: Hector Guerrero/AFP)

13/05/2017

Enrique Peña Nieto tuitou para ator e disse que o país está tomando medidas para proteger as vaquitas, animais à beira da extinção nas águas mexicanas.

Por Dave Graham, Reuters

O presidente do México, Enrique Peña Nieto, escreveu a Leonardo DiCaprio pelo Twitter na quinta-feira (11) na tentativa de tranquilizar o ator dizendo que seu governo está adotando medidas para proteger uma espécie rara de toninha que está à beira da extinção nas águas mexicanas.

As populações de vaquita, uma toninha pequena de focinho arrebitado que vive no Golfo da Califórnia, diminuíram consideravelmente nos últimos anos devido à pesca de camarão e totoaba, uma iguaria popular na Ásia, com rede de arrasto, o que tem provocado uma preocupação crescente em todo o mundo.


Na quarta-feira (10), DiCaprio pediu a seus 17,5 milhões de seguidores no Twitter que apóiem uma campanha online da entidade World Wildlife Fund que incentiva as pessoas a exortarem o presidente mexicano a "adotar uma ação firme agora" para salvar a vaquita.

Na noite de quinta, Peña Nieto tuitou em inglês defendendo o empenho de seu governo pela vaquita, dirigindo-se diretamente ao ator com sua primeira postagem.

 


"Saúdo a preocupação de @LeoDiCaprio e da @World_Wildlife em relação à Vaquita Marina", escreveu. "O @México está concentrando todos seus esforços para evitar a extinção desta espécie", disse antes de enviar mais cinco tuítes, todos em inglês, para chamar atenção para o que seu país vem fazendo.

O México impôs uma proibição de pesca com rede de arrasto de dois anos no hábitat da vaquita em 2015, prorrogando a medida no início deste ano. Críticos se queixam de que a proibição precisa ser mais bem aplicada.

O Viva Vaquita, um grupo dedicado a salvar a toninha, diz em seu site que a população de vaquita foi estimada em menos de 50 em janeiro de 2017 com base em estudos anteriores.

ONU DIZ QUE "FUTURO DAS AVES MIGRATÓRIAS É O FUTURO DA HUMANIDADE"

Pelicano branco. Foto: Unep/AEWA/Sergey Dereliev

13/05/2017

No Dia Mundial das Aves Migratórias, este 10 de maio, a agência ambiental das Nações Unidas busca um planeta saudável para os pássaros e para as pessoas.

Edgard Júnior, da ONU News em Nova Iorque.

A ONU Meio Ambiente alertou que as aves migratórias estão enfrentando um número crescente de ameaças durante longas viagens. A agência da ONU fez a declaração para marcar o Dia Mundial das Aves Migratórias, este 10 de maio.

Para escapar do frio nos Hemisférios Sul ou Norte, dependendo da época do ano, esses pássaros realizam voos intercontinentais com paradas específicas para que possam descansar e prosseguir a jornada.

Caça ilegal

Entre as ameaças, as aves enfrentam a perda de seu habitat natural, mudanças nas práticas de agricultura e principalmente a caça ilegal.

Nessa data, a ONU Meio Ambiente cita a necessidade da cooperação internacional para proteger os pássaros migratórios e seus habitats naturais para o benefício da humanidade.

O tema deste ano é: "O Futuro Delas é o Nosso Futuro – Um Planeta Saudável para Aves Migratórias e para as Pessoas" e ele está diretamente ligado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODSs.

A agência cita o exemplo da chamada pomba-tartaruga europeia, cuja população caiu 90% desde 1970 e está em risco de extinção.

No caso da perda do habitat natural no litoral Atlântico do continente Americano, houve uma redução de 80% nos pássaros chamados maçarico-de-papo-vermelho nos Estados Unidos, desde 2000.

Fonte: Rádio ONU

DIA DA TERRA: FILÓSOFO HOLANDÊS ESCREVE CARTA À HUMANIDADE



22/04/2017

Koert van Mensvoort, filósofo holandês – fundador da Next Nature Network e membro da ‘Next Nature’ na Universidade de Tecnologia em Eindhoven – escreveu uma ‘Carta para a Humanidade’ em apoio ao Dia Internacional da Terra, comemorado no dia 22 de abril. Em sua carta, ele convoca a humanidade a evitar se tornar escrava e vítima de sua própria tecnologia, mas empregar a tecnologia para aprimorar a raça humana.

Sua carta está endereçada a todas as 7 bilhões de pessoas na Terra. Ela foi traduzida em 25 idiomas de todo o mundo e está endossada por embaixadores internacionais como o astronauta André Kuipers, o filósofo Bas Haring, o designer Daan Roosegaarde, o apresentador da National Geographic Jason Silva e a professora de arquitetura experimental Rachel Armstrong.

Na carta, Van Mensvoort descreve como o homem entrou em uma nova fase evolucionária e que, além de criar a biosfera, atualmente também criou a suposta tecnosfera. De acordo com ele, seu impacto é semelhante à evolução dos animais há 500 milhões de anos. “Sua presença está transformando a face da Terra de maneira tão profunda que ainda será evidente daqui a milhões de anos”, escreve ele.

De acordo com ele, o Homem está numa encruzilhada e pode fazer com que sua relação com a tecnologia se transforme num sonho ou num pesadelo. No cenário do pesadelo, a tecnologia possui um efeito parasita nos seres humanos e nos tornamos a primeira espécie a causar seu próprio fim. No do sonho, a tecnologia humana está baseada nas necessidades humanas como ponto de partida e, na verdade, é usada para criar um mundo mais natural. O último caminho é recompensador para a humanidade bem como para todo o planeta.

Koert van Mensvoort é filósofo, artista e membro da ‘Next Nature’ na Universidade de Tecnologia em Eindhoven. Ele é o fundador da Next Nature Network, uma fundação que explora e visualiza até que ponto estamos rodeados por uma tecnologia que está se tornando nossa ‘next nature’. Essa rede internacional agora possui membros em vinte países.

A carta em português pode ser lida em http://lettertohumanity.org/portugues/ ou abaixo.

Carta à Humanidade

Querida Humanidade,

Parece estranho escrever-te uma carta, admito. As cartas são geralmente dirigidas a um indivíduo ou a um grupo limitado de pessoas. Não é habitual escrever para a humanidade como um todo. Tu nem tens um endereço postal, e eu duvido que recebas muita correspondência. Ainda assim, pensei que estava na hora de te escrever.

Obviamente, eu compreendo que não posso chegar completamente a todos – porque a humanidade não só consiste em cada pessoa que está viva agora, mas também em todos os que já viveram. São 107 mil milhões de pessoas. E depois há todos os outros que ainda não nasceram – espero que haja muitos deles. Voltarei a isso mais tarde, mas antes de falar sobre o futuro, gostaria de olhar para trás.

Fizemos um longo caminho, querida humanidade.

Nenhum outro animal moldou os seus arredores tão completamente como tu. Começou há algum tempo, há cerca de 200.000 anos atrás. Naquela época, não existia nenhum prémio Nobel por ter a brilhante ideia de usar peles de animais para manter o calor, ou controlar o fogo, ou inventar a lança ou o sapato. Todas estas foram invenções excecionalmente inteligentes que não apenas te permitiram sobreviver no teu indisciplinado habitat natural original, como também te permitiu moldá-lo à tua vontade e dominá-lo.

Os seres humanos nem sempre foram tão poderosos. Durante muito tempo, foste uma espécie marginal, sem importância, localizada nalgum lugar no meio da cadeia alimentar, sem mais controlo sobre o teu ambiente do que os gorilas, borboletas ou alforrecas. Mantiveste-te vivo principalmente colhendo plantas, apanhando insetos, perseguindo pequenos animais e comendo carcaças deixadas por predadores muito mais fortes, com os quais viveste em constante medo.

Sabias que há mais variação genética no grupo de chimpanzés normal do que há entre os 7 mil milhões de pessoas que vivem na Terra hoje? Os pesquisadores acreditam que isso ocorre porque os seres humanos quase se extinguiram uma vez e a população global de hoje descende de alguns sobreviventes. Esse facto obriga-nos a sermos modestos. Na realidade, é um milagre estarmos aqui.

Fisicamente, em comparação com muitos animais, os seres humanos são criaturas surpreendentemente frágeis. Que outro animal entra no mundo nu, gritando e relativamente desamparado, presa fácil para qualquer predador que apareça? Um cordeiro recém-nascido pode andar dentro de algumas horas; uma criança humana leva cerca de um ano para ficar sobre os seus próprios dois pés. Outros animais têm sentidos específicos, órgãos e reflexos que lhes permitem sobreviver em ambientes específicos, mas tu não estás naturalmente equipado para qualquer habitat em particular. No entanto, esta fraqueza aparente também provou ser uma força, permitindo-te a propagação da savana até ao Polo Norte, ao fundo do oceano e à Lua! Essa é uma conquista única.

Algumas pessoas até pensam que devias ir além da terra e povoar o universo. Por si mesmo, essa é uma ótima ideia, mesmo que seja para evitar que sejas destruído algum dia quando um meteorito maciço atingir o planeta. Isso seria uma vergonha. Para ser honesto, porém, penso que é um pouco cedo para procurares refúgio noutros mundos. Primeiro, vamos tentar resolver alguns problemas no nosso planeta natal. Porque tem que ser dito que a tua presença na terra causou problemas: aquecimento global, desflorestação, plástico nos oceanos, radiação ionizante, biodiversidade em declínio. É o suficiente para fazer uma pessoa deprimida. Às vezes parece que fazes mais mal do que bem!

Muitas vezes encontro pessoas que acreditam que o planeta seria melhor se não estivesses aqui. Espero não te ofender dizendo isso, querida humanidade, mas sinto-me obrigado a dizer-te que há aqueles entre nós que desconfiam de ti, olham para ti com desprezo ou simplesmente não gostam de ti porque pensam que estás a arruinar o planeta. Eu apresso-me a acrescentar que eu não sou um deles. Eu sempre tive dificuldade em entender tal misantropia, porque, em última análise, é uma forma de ódio próprio.

De onde vem essa desconfiança da humanidade? Numa investigação mais aprofundada, descobri que os infetados com ela têm uma imagem particular da humanidade que, na minha opinião, é completamente incorreta: eles vêem-na como uma espécie antinatural, que não pertence verdadeiramente à natureza romântica, bela e harmoniosa. Creio que este é um preconceito ingénuo que não nos ajudará a avançar, e devemos livrar-nos dele o mais rápido possível. Para entender essa ideia, precisamos de começar no início.

A Terra surgiu há mais de 4,5 mil milhões de anos. No início, não passava de uma pedra solitária no espaço, e levou mais de mil milhões de anos até que a biosfera do planeta se começasse a formar. Depois disso, levou cerca de 2 mil milhões de anos mais para as primeiras plantas multicelulares evoluírem. Outros mil milhões de anos depois, durante a explosão Cambriana, surgiu no planeta um tipo de vida completamente novo: os animais.

Os primeiros animais surgiram em cena há 500 milhões de anos. Não sabemos como as plantas, que já existiam há cerca de mil milhões de anos, sentiram o surgimento dos animais. Como sabes, as plantas gostam de ser deixadas em paz; Elas não se movem muito e retiram sustento do sol e do solo. Agora, eu não sei o que as plantas pensam, uma vez que eu não posso falar com elas, mas não me parece impossível que elas tenham achado agitado e desconfortável ter que aturar os animais ao seu redor. Talvez até tenham visto os animais como antiéticos, não apenas porque fundamentalmente não tinham raízes e viviam num ritmo inimaginável, mas mais porque faziam algo que naquela época era completamente novo, nunca visto e abominável: os animais comiam plantas.

Tudo considerado, a chegada dos animais pode não ter sido muito divertida para as plantas. A evolução é incessante, porém, e embora uma terra povoada apenas por plantas estava bem como estava, também era um pouco maçador, ou no mínimo, menos emocionante do que uma que continha animais também (eu vou poupar-te a uma descrição de como era no tempo em que a terra não tinha plantas, apenas pedras, o que era ainda mais maçador).

Então, de volta para o papel da humanidade. Assim como o surgimento dos animais abalou o mundo vegetal, a tua chegada também causou problemas. Lembra-te, acabaste de chegar aqui. Os animais existem há cerca de 2.000 vezes mais tempo que os humanos, e a vida vegetal simples há mais de 7.000 vezes mais tempo. Mas eu não estou a dizer isso para te obrigar à modéstia, porque eu penso que és incrível.

Embora sejas fundamentalmente uma espécie animal, há algo inteiramente único sobre ti, que tem menos a ver com a construção física humana – que, como eu disse, é menos do que impressionante – e mais com a tua tendência inerente para usar a tecnologia. Enquanto outras espécies de animais industriosos transformam os seus arredores – pensa em tocas de castor e montes de térmitas – nenhum deles o faz tão radicalmente como tu. Estou a usar a palavra “tecnologia” no sentido mais amplo: por “tecnologia”, quero dizer todas as formas como o pensamento humano tem um impacto no mundo que nos rodeia – roupas, ferramentas e carros, mas também estradas, cidades, alfabeto, redes digitais, e até mesmo empresas multinacionais e o sistema financeiro.

Desde que nasceste, estás a construir sistemas tecnológicos para te libertares das forças voluntárias da natureza. Começou com um teto sobre a tua cabeça que te protegeu de uma tempestade e tem prosseguido todo o caminho até às drogas modernas para o tratamento de doenças mortais. Tu és tecnológica por natureza. Mas como um peixe que não sabe que está a nadar na água, tendes a subestimar o quão intimamente a tua vida está entrelaçada com a tecnologia e quanto é feito para ti. Olha para a esperança de vida, por exemplo. No início da tua existência, o ser humano médio não poderia esperar viver muito além da idade de 30 anos. Em parte por causa das elevadas taxas de mortalidade infantil, podias contar com a tua própria sorte se ficasses por aí o tempo suficiente para te reproduzires. Da perspetiva da Mãe Natureza, isso é inteiramente normal. Se vires um casal de patos com uma dúzia de patinhos a nadar atrás deles na primavera, não deves surpreender-te se existirem apenas dois, ou com sorte talvez três, restantes até ao fim do verão.

A tecnologia faz parte de nós, da mesma forma que as abelhas e as flores evoluíram para serem interdependentes. À medida que as abelhas apanham o néctar, elas ajudam as flores a reproduzirem-se, espalhando o seu pólen. Os seres humanos são dependentes da tecnologia, e vice-versa. A tecnologia precisa de nós para se espalhar e reproduzir. E a humanidade, que ajuda enorme tem sido nesse ponto! A tecnologia tornou-se tão omnipresente no nosso planeta que abriu um novo ambiente, um novo cenário, que está a transformar toda a vida na Terra. Uma tecnosfera – uma ecologia de tecnologias interativas que evoluiu após a tua chegada – desenvolveu-se em cima da biosfera existente. O seu impacto sobre a vida na Terra dificilmente pode ser subestimado e é comparável, e talvez ainda maior, ao do aparecimento dos animais há 500 milhões de anos.

De uma perspetiva evolucionária, tudo isso é o habitual. A natureza baseia-se sempre nos níveis de complexidade existentes: a biologia baseia-se na química, a cognição baseia-se na biologia, o cálculo baseia-se na cognição. Mas do seu ponto de vista, é excecional. Não consigo pensar noutra espécie cuja presença tenha desencadeado uma nova fase evolucionária, libertando-se de uma evolução baseada em compostos de ADN, gene e carbono, com milhões de anos. Assim como o ADN evoluiu a partir do ARN, as tuas ações tornaram possível um salto para a evolução não genética em novos materiais, como chips de silício. Embora não tenha sido um ato consciente, as consequências não são menores. A tua presença transformou a face da Terra tão fundamentalmente que o impacto ainda será visível daqui a milhões de anos. Esta é a tua obra, mas, até agora, tu mal pareces tê-lo percebido, e muito menos foste capaz de tomar uma posição clara em relação a isso.

Agora, eu compreendo que isso está longe de ser uma tarefa simples, só porque tu, a humanidade, não és um único ser pensante, mas uma confusão de milhões de indivíduos, todos com os seus próprios pensamentos, necessidades e desejos, que não estão realmente equipados biologicamente para pensar a um nível planetário em larga escala. No entanto, parece-me ser a questão mais premente do momento. Tu estás numa encruzilhada. E é por isso que te estou a escrever.

No que diz respeito ao futuro, vejo dois caminhos possíveis ao longo dos quais podes desenvolver uma relação coevolucionária com a tecnologia: o caminho dos sonhos e o dos pesadelos. Vamos começar com os pesadelos. Toda a relação coevolucionária – seja entre abelhas e flores ou entre humanos e tecnologia – corre o risco de se tornar parasita. As relações parasitas, em contraste com as simbióticas, carecem de reciprocidade. Uma sanguessuga, uma ténia ou um cuco não devolvem nada ao seu hospedeiro; apenas tiram. Poderia a tensão que sentimos em torno da tecnologia ter algo a ver com isso? Apesar de usarmos a tecnologia desde tempos imemoriais, porque nos serve e estende as nossas capacidades, os seres humanos correm o risco de ser os que servem a tecnologia, de se tornarem um meio em vez de um fim, tornando-se hóspedes da tecnologia. Um exemplo pode ser visto na esfera farmacêutica. A medicação é, sem dúvida, uma tecnologia que salva vidas, mas quando as empresas farmacêuticas tentam maximizar os seus próprios números de crescimento, convencendo todos os que se desviam da média estatística de qualquer forma que ele ou ela tem uma doença e precisa do medicamento apropriado, temos que perguntar se eles estão realmente a servir a humanidade ou apenas a satisfazer as necessidades da indústria e dos seus acionistas.

Onde fica exatamente a fronteira entre as tecnologias que facilitam a nossa humanidade e aquelas que nos encaixotam e roubam o nosso potencial inato? O espectro final é que tu, a humanidade, acabas por te tornar nada mais do que o órgão sexual que um organismo tecnológico maior requer para se reproduzir e se espalhar. Formas de vida encapsuladas dentro de outras maiores podem ser encontradas noutras partes da natureza: por exemplo, pensa na flora intestinal que executa várias tarefas úteis dentro dos nossos corpos. Será que em breve não seremos mais do que os micróbios na barriga da besta tecnológica? Nesse ponto, a humanidade não será mais um fim, mas um meio. E eu não vejo isso como desejável, porque eu sou uma pessoa, e eu estou a jogar pela equipa da humanidade.

Agora para o sonho.

O sonho é que tu acordas e percebes que ser um humano não é um ponto final, mas um processo. A tecnologia não altera só o nosso ambiente, em última análise, altera-nos. As mudanças vindouras permitirão que tu sejas mais humano do que nunca. E se usarmos a tecnologia para ampliar as nossas melhores qualidades humanas e para nos apoiar nas nossas fraquezas?

Poderíamos chamar a essa tecnologia de humana, à falta de uma palavra melhor. A tecnologia humana tomaria as necessidades humanas como ponto de partida. Isso serviria os nossos pontos fortes, em vez de nos tornar supérfluos. Ela expandiria os nossos sentidos ao invés de os embotar. Seria sintonizada com os nossos instintos; pareceria natural. A tecnologia humana não só serviria os indivíduos, mas, em primeiro lugar, a humanidade como um todo. E por último mas não menos importante, iria perceber os sonhos que nós os seres humanos temos sobre nós próprios.

Então, com o que sonhas? Voar como um pássaro? Viver na Lua? Nadar como um golfinho? Comunicar pelo sonar? Telepatia com os teus entes queridos? Igualdade entre os sexos e as raças? A empatia como um sexto sentido? Uma casa que crescesse com a tua família? Queres viver mais? Talvez pudesses viver para sempre.

Ouve, humanidade: tu já foste uma espécie relativamente insignificante, mas os teus dias de infância acabaram. Graças à tua inventividade e criatividade, levantaste-te da lama da savana. Tornaste-te num catalisador evolucionário que está a transformar a face da Terra. Esse processo não está completo. Tu és uma dobradiça entre a biosfera de onde surgiste e a tecnosfera que surgiu após a tua chegada. O teu comportamento afeta não apenas o teu próprio futuro, mas o planeta como um todo e todas as outras espécies que vivem nele. Essa não é uma responsabilidade pequena.

Se não pensas que estás equipado para isso, devias ter ficado na tua caverna. Mas esse não é o teu estilo. Tens sido tecnológica desde o dia em que nasceste. O desejo de voltar à natureza é tão compreensível quanto impossível. Não só seria covarde diante do desconhecido, mas negaria a tua humanidade. Não podemos imaginar o futuro da humanidade sem pensar no futuro da tecnologia. Deves seguir em frente – mesmo que só agora tenhas chegado aqui. Tu és uma adolescente, mas está na hora de crescer. A tecnologia é o autorretrato da humanidade. É a materialização do engenho humano no mundo físico. Vamos fazer uma obra de arte de que nos possamos orgulhar. Vamos usar a tecnologia para construir um mundo mais natural e traçar um caminho para o futuro, que funcione não só para a humanidade, mas para todas as outras espécies, o planeta e, finalmente, o universo como um todo.

Para encerrar, eu gostaria de te pedir que faças algo. Gostaria de convidar cada um de vocês – vivendo e ainda não nascido, na Terra e noutros lugares – a fazer uma simples pergunta sobre cada mudança tecnológica que aparece na tua vida: isto aumenta a minha humanidade?

A resposta geralmente não será preto ou branco, sim ou não. Mais frequentemente, será algo como 60 por cento sim, 40 por cento não. E às vezes discordarás com outras pessoas e terás de debater o assunto antes de chegar a um acordo. Mas isso é bom. Se todos nós consistentemente optarmos por tecnologia que aumenta a nossa humanidade, eu sei que vais ficar bem. Como? Isso continua por ser visto. Ninguém sabe como serão os seres humanos daqui a um milhão de anos, ou se haverá até mesmo seres humanos, e se assim for, se eu os reconheceria como humanos. Vamos aceitar implantes? Reprogramação do nosso ADN? O dobro do tamanho do nosso cérebro? Comunicar telepaticamente? Brotaram asas? Eu não sei e não posso saber. Mas a minha esperança é que daqui a um milhão de anos ainda haverá uma coisa como a humanidade. Porque enquanto houver humanidade, haverá seres humanos.

Do núcleo da minha humanidade humilde e imperfeita, desejo-vos felicidade, amor e uma viagem longa e empolgante.

Na expectativa de que trarás triliões de pessoas mais, tudo de melhor,

Koert van Mensvoort

PS: Nota para o leitor individual: Depois de leres esta carta, por favor passa-a a um dos teus companheiros humanos. Se quiseres fazer mais, também podes copiar, traduzir, reimprimir e distribuí-la. A humanidade somos todos nós.

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